terça-feira, 11 de agosto de 2026

"Eu mesmo provoquei essa solidão”: professor relata os desafios de viver com altas habilidades

Klaus Leite Pinto Vasconcellos aprendeu a ler muito cedo. Na infância e na adolescência, passava boa parte do tempo entre livros, estudos e assuntos que não conseguia compartilhar com outras pessoas da mesma idade. Não se recorda de ter sido rejeitado pelos colegas. Pelo contrário, diz que era bem recebido na escola. 

Ainda assim, sentia-se mais sozinho do que as outras crianças. “Eu acho que eu mesmo provoquei essa solidão. Com uma capacidade intelectual grande, passei a estudar e ler com uma frequência muito maior do que a normal, e isso fez com que eu mesmo me afastasse”, conta.

A dedicação intensa à literatura e aos estudos reduziu seu contato com outras experiências. “Eu me concentrei demais em literatura e estudo e não tinha ninguém com quem discutir. Isso me impediu de procurar mais o resto do mundo, de ter mais amigos e também tornou mais difícil o contato com o mundo real que estava à minha frente.”

Hoje, Klaus é professor titular do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), doutor em Estatística pela Universidade de Warwick, na Inglaterra, e autor do livro Fundamentos para a Estatística de Convergência de Variáveis Aleatórias, publicado em 2021 pela Sociedade Brasileira de Matemática. A trajetória acadêmica, no entanto, não foi uma escolha simples.

Desde criança, Klaus queria estudar Matemática. A família, preocupada com as possibilidades profissionais e financeiras, tentou direcioná-lo para outra carreira. Por orientação da mãe, graduou-se em Engenharia Elétrica. Mais tarde, seguiu para a pós-graduação em Estatística Matemática e tornou-se professor universitário.

“Minha vocação era ser matemático. Minha mãe me proibiu de fazer Matemática porque eu acabaria ganhando salário de professor de universidade. Formei-me engenheiro elétrico, mas depois fui fazer pós-graduação em Estatística Matemática e hoje sou professor da UFPE. De certa forma, as coisas acabaram acontecendo como tinham que acontecer”, afirma.

Dentro da comunidade estatística, Klaus passou a ser reconhecido justamente pela forte formação matemática e pela facilidade para mergulhar em assuntos novos e complexos.

“Se me disserem que preciso estudar Geometria Algébrica para ensinar a disciplina em 2028, minha resposta será: claro, me dê as referências. No final de 2027, vocês terão um professor de Geometria Algébrica”, conta.

Essa facilidade, porém, convive com dificuldades em outras áreas. Klaus diz que sempre teve pouca coordenação para esportes e atividades físicas, uma diferença que marcou sua infância e permaneceu na vida adulta.

“Eu sempre fui muito bom intelectualmente, mas tive que pagar o preço de ser desajeitado e sem coordenação. Essa dicotomia sempre foi um dos maiores desafios da minha vida.”

 A cobrança para ser sempre excelente. Outro desafio foi conviver com a expectativa de que uma pessoa identificada como superdotada deve apresentar desempenho excepcional o tempo todo. Klaus se recorda de um episódio da adolescência em que acompanharia o pai, que era neurologista, a um hospital. Para passar o tempo, pretendia levar uma revista em quadrinhos, mas ouviu do pai que deveria escolher outra leitura porque os colegas sabiam que ele era superdotado.

No lugar dos quadrinhos, levou Apresentação da Poesia Brasileira, de Manuel Bandeira.

“É muito comum ter que enfrentar uma supercobrança. Só esperam de você o máximo, e isso é um grande desafio”, diz.

A psiquiatra Fabrícia Signorelli, especialista em TDAH, TEA e altas habilidades, explica que elevado potencial intelectual não significa necessariamente sucesso acadêmico, profissional ou emocional. Características como perfeccionismo, desenvolvimento assíncrono e intensidade emocional podem se transformar em dificuldades quando não há identificação e apoio adequados.

“A gente tem um estereótipo muito errado de que ter altas habilidades ou superdotação é igual a ter sucesso ao longo da vida. A falta de desafios, a dificuldade de identificação e a pressão social podem levar ao insucesso”, afirma.

Milhões podem permanecer sem identificação - A história de Klaus ajuda a dar rosto a uma realidade ainda pouco conhecida no país. Celebrado em 10 de agosto, o Dia Internacional da Superdotação chama a atenção para o baixo número de estudantes identificados no Brasil.

O Censo Escolar 2025, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), contabilizou cerca de 56 mil crianças e adolescentes com altas habilidades ou superdotação na educação básica. Em 2024, eram pouco mais de 44 mil, crescimento de aproximadamente 27% em um ano.

Os registros, porém, permanecem muito abaixo das estimativas. Uma publicação acadêmica da Universidade Federal de Santa Maria reproduz a estimativa, atribuída à Organização Mundial da Saúde, de que 3% a 5% da população apresente altas habilidades ou superdotação. Aplicada às aproximadamente 46 milhões de matrículas da educação básica, essa proporção representaria entre 1,38 milhão e 2,3 milhões de estudantes.

Isso significa que o Brasil identifica apenas uma pequena parcela dos alunos que podem apresentar esse perfil. A diferença entre os registros oficiais e as estimativas varia de 1,3 milhão a mais de 2,2 milhões de estudantes.

Superdotação não é doença - Um dos obstáculos para a identificação é o desconhecimento sobre o que caracteriza as altas habilidades. Fabrícia ressalta que superdotação não constitui diagnóstico médico e não possui classificação própria na CID. Em alguns casos, características desse perfil podem ser interpretadas como sintomas de transtornos psiquiátricos.

“Muitas vezes, a não identificação da superdotação e a interpretação dessas características como sintomas de um transtorno psiquiátrico levam a diagnósticos errados ou identificações perdidas”, afirma.

A médica também chama a atenção para o risco de medicalizar características que não representam uma doença.

Altas habilidades podem coexistir com outras condições - Uma pessoa com altas habilidades também pode apresentar TDAH, transtorno do espectro autista, dislexia, deficiência ou outra condição. Essa coexistência recebe o nome de dupla excepcionalidade.

Nesses casos, o elevado potencial cognitivo pode compensar algumas dificuldades e tornar menos evidentes os sinais de outros transtornos, principalmente na escola. Segundo Fabrícia, um QI elevado pode, por exemplo, mascarar prejuízos 

pedagógicos associados ao TDAH. Por isso, a identificação precisa considerar tanto as altas habilidades quanto uma eventual condição associada.

Altas habilidades também acompanham o envelhecimento - Embora boa parte das discussões sobre superdotação esteja concentrada na infância e na vida escolar, as altas habilidades acompanham o indivíduo ao longo da vida. Ainda há, porém, perguntas sem resposta sobre como esse perfil se relaciona com o envelhecimento cerebral.

“Ainda não é possível afirmar que o cérebro de uma pessoa com altas habilidades envelheça mais lentamente ou apresente proteção específica contra doenças neurodegenerativas”, explica Thaís Bento Lima, gerontóloga parceira científica do Supera Estimulação Cognitiva.

Segundo ela, independentemente do nível intelectual, hábitos associados à saúde cerebral permanecem importantes com o avanço da idade. “Manter oportunidades de aprendizagem, desafios cognitivos, atividade física, participação social e cuidados com a saúde ao longo da vida continua sendo importante para a promoção de um envelhecimento saudável.”

Nova lei prevê identificação precoce e atendimento especializado - Em junho de 2026, foi sancionada a Lei Federal nº 15.436, que instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação. 

A legislação prevê identificação precoce, atendimento educacional especializado, progressão escolar flexível, formação de profissionais da educação e criação de um cadastro nacional.

A lei também reconhece a dupla excepcionalidade e determina que o atendimento considere tanto as altas habilidades quanto as necessidades relacionadas a outra condição ou deficiência.

Para os especialistas, ampliar a identificação é um dos principais caminhos para que crianças e adolescentes não atravessem a escola sem compreender as próprias características e sem receber estímulos compatíveis com suas necessidades.

No caso de Klaus, entender essas diferenças ajuda hoje a olhar para a própria trajetória com outra perspectiva. A facilidade intelectual abriu caminhos acadêmicos, mas veio acompanhada de solidão, cobrança e dificuldades que raramente aparecem quando se fala em superdotação.

“Só esperam de você o máximo”, resume o professor.

Com informações da CNN.

Nenhum comentário:

Postar um comentário